O quartzo e a poesia

O quartzo e a poesia
O Quartzo rutilado é um cristal que traz em seu interior, fragmentos em forma de agulhas douradas do mineral rutilo, segundo astrólogos, tais agulhas, refletem a luz das estrelas longínquas, seu brilho estimula a comunicação e o conhecimento. A poesia, análoga ao Quartzo rutilado, por meio de fragmentos de lirismo, também comunica e traz conhecimento, de maneira prazerosa e mágica.

sábado, 12 de julho de 2014



UM FILME:





Marcelo Masagão: direção.
Wilm Mertens: música original.
André Abujamra: sound designer e música complementar.
Brasil, 2003.

"Estranho", "Diferente", "Entediante", "Falso". Pelas críticas não se trata de um filme comum. "1,99 - Um Supermercado Que Vende Palavras" de Marcelo Masagão consegue transformar em narrativa visual os abstratos mecanismos do fetichismo das marcas e do consumo. Dessa forma,o diretor evita cair no lugar-comum das críticas à sociedade de consumo. 
Fazer uma crítica à sociedade de consumo já se tornou um lugar-comum, principalmente porque ela acaba vítima de duas armadilhas: primeiro a da análise moralista com a visão de que no consumo “o ter substitui o ser” ao induzir as pessoas ao “consumismo” de “bens supérfluos”. E, segundo, a de reduzir o consumo à sua superficialidade, isto é, ao mero ato de aquisição de bens materiais. Ambas as críticas acabam convergindo para a solução reformista: se o consumo é uma questão de excesso e de superfluidade, então devemos professar o “consumo consciente”.
Porém, nesse filme o diretor consegue  driblar essas armadilhas de análise ao propor uma visão mais radical sobre a sociedade de consumo: o seu problema não é que as pessoas sejam definidas pelo que elas têm, mas que suas identidades sejam construídas a partir do que desejam, idealizam e sonham traduzido por marcas e mercadorias. Pouco importa se de fato as pessoas comprem. O consumo já está muito além disso, está no campo psíquico do desejo, da intenção, da fantasia, em outras palavras, do fetiche.
"1,99" é um filme que  usa muito o artifício da simbologia, o tom branco permeia todo o filme, remetendo ao simbolismo literário. Ou seja, nada do que é mostrado é óbvio ou fácil de ser compreendido.  O filme não possui uma trama linear e  trabalha conceitos sobre o comportamento do homem contemporâneo. O clima de estranheza do supermercado  é permanente, num contraste com a leveza e suavidade com a qual a câmera passeia durante o filme. Outro ponto que vale ressaltar é a completa ausência de emoções por parte das pessoas que estão no supermercado. Com ausência de diálogos, consegue transmitir mensagens reflexivas instigando a capacidade analítica do expectador.
            Os personagens humanos são coadjuvantes dando espaço aos protagonistas principais que são o desejo, a angústia e a compulsão por comprar. O mundo exterior só aparece mediado por máquinas como computadores, câmeras e telefones.
 Um supermercado onde o que está a venda , em tons absolutamente brancos, são conceitos e idéias como amor, sucesso e família, por meio de slogans normalmente explorados pelo império nocivo das marcas, “seja você mesmo”, “você é único”, “você conhece, você confia” etc. Exploram-se assim a falência dos valores sociais, ressaltando  a individualidade e o autodesejo intrínseco comum ao ato da compra.

Fica a dica!


domingo, 2 de março de 2014










Novembros

As pálpebras indolentes
 lutam contra a visita do dia
Implacável,  mesmo de luto,
Resoluto, veio bater o cartão de ponto
ensaiando  com  luz tímida
o seu espetáculo rotineiro
no palco da minha janela
 As nuvens vertiginosamente cinzentas
 Arranham o resto do azul 
Desta  manhã de novembro
 Meu peito,  alvo dardejado
 refúgio de aguilhões  de palavras
Jogadas em compilações diversas
Não tentei,  nem ansiei fugir
Ainda que não fossem minhas
Também não eram de mais ninguém
Recebi-as de bom grado
E a manhã cinzenta de novembro
Contorcia-se em  lágrimas
Que insistentemente orquestravam o telhado
Sonata em dor maior
Lá fora e aqui dentro

                                          E.Manja

domingo, 5 de janeiro de 2014

Ano Novo!









A tumultuada multidão
Que estampava a paisagem
Com fundas pegadas entalhadas
N'areia morna e noturna
Celebrava o raiar de um novo dia

Misturados a leve brisa que eu respirava,
Perfumes impregnavam a atmosfera beira mar
Fazendo companhia à salinidade trazida pelo ar
Degustada pelo sorver da minha língua
Ao redor dos lábios

Ecos, ondas, cânticos e rezas...
Confundiam-se com o som das palavras
Bafejadas entre goles de doce espumante
Embriaguei-me dos místicos instantes
De mais um giro da terra em torno do sol

Coriscos luminosos explodiam
Em luzes de cascatas multicoloridas
Velas, (ritos), oferendas, flores e patuás...
Poderiam ser o bastante para devolver
Tudo aquilo que a humanidade perdera

Precipitei-me entre as ondas sutis e calmas
Percebi que hoje sou o bastante do jeito que sou
Deixei a poesia possuir meu corpo
Deixei a poesia possuir minh'alma
Meu cálice transbordou de paz

Junto a mim, os prazeres do céu
Junto a mim, os pesares da terra
Os primeiros, semeio e deixo florecer em mim
Os segundos, transfiguro em uma nova linguagem:
Poética!